segunda-feira, 23 de janeiro de 2012

PostHeaderIcon O Gato de botas ou o aventureiro ronronador


                          Da esquerda para a direita: Humpty Dumpty; Kitty Pata Mansa; Gato de Botas; Jack e Jill

"É por isso que me chamam de 'pata mansa'"

                                                                      "E ai, gatinha?"

                                                                        Amigos?

                                                               "Noooooossaaaaaaaaaa!!!!!"



Comecemos pelo começo: o Gato de botas é um personagem de um conto (infantil?) de Charles Perrault, publicado no livro “Contos da mamãe gansa” (1697). O felino protagonista de “Gato de Botas” (Puss in Boots, EUA, 2011, dirigido por Chris Miller) é inspirado no personagem de Perrault, só que transposto para um contexto completamente diferente do original (uma versão aproximada do conto original pode ser encontrada no seguinte endereço: (http://www.educacional.com.br/projetos/ef1a4/contosdefadas/gatodebotas.html). A primeira aparição do felino que protagoniza o filme aqui resenhado deu-se no filme “Shrek 2” (2004) e de imediato tal versão estilizada do gato de botas roubou a cena no longa; no “Shrek 3” (2007), o felino volta a aparecer e dessa vez o diretor do longa foi Chris Miller, justamente quem dirigiu esta primeira aventura do gato como protagonista.

A primeira diferença entre a franquia Shrek e a do Gato de botas consiste na origem dos personagens; como já dissemos, o felino espadachim se baseia num conto, sendo ele no original um personagem perspicaz; assim, embora tenha havido estilização (sobretudo no que concerne a aproximá-lo duma versão felina do herói Zorro, não sendo a toa que o dublador do gato não só em inglês e espanhol, mas também em italiano foi Antônio Banderas, interprete do Herói mascarado no cinema), o personagem de um gato que usava botas e dava uma de herói. Cabe salientar que, embora no conto original o gato não seja espadachim, muito menos um Don Juan, sua perspicácia é preservada no longa, sobretudo quando o felino utiliza sua indefectível carinha meiga. Por sua vez, Shrek não constitui uma estilização dum personagem já existente, mas a personalização dum eterno figurante em contos de fada: a figura genérica do ogro, cuja função geralmente se limitava a ser um personagem do lado mau, porém figurante (se não me engano os trolls de Tolkien se inspiram nos ogros).

A segunda diferença dar-se na estrutura narrativa, e aqui o gato leva uma surra: toda a dinâmica estrutural de todos os episódios de franquia Shrek se baseavam num humor escrachado, escracho este que se dava tanto em relação aos contos de fada (um ogro bom, um príncipe baixinho e mesquinho, uma fada madrinha mau caráter) como em relação a clássicos do cinema (no momento me fugiram os exemplos, mas encontrei muitos no “Shrek 2”). Já na aventura “solo” do gato o humor se baseia majoritariamente (quiçá exclusivamente) em gags visuais; o personagem Humpty Dumpty tem um quê que ridículo que torna desnecessário grandes esforços para ser engraçado. Cabe salientar que, em minha opinião o maior carisma do gato em relação a Shrek compensa a notória inferioridade do enredo de seu filme “solo”.

No que concerne às similaridades entre os filmes Shrek e o Gato de botas, a principal consiste no fato de ambos se utilizarem do recurso anárquico da mistura de contos de fada: como já mencionamos e repetimos, o personagem do Gato de botas se baseia no personagem homônimo de um conto de Charles Perrault; por sua vez o enredo do filme nada tem a ver com o do conto original, misturando a história do conto de fada “João e o pé de feijão” com a história de infância do gato num orfanato ao lado de Humpty Dumpty; este último, embora apareça em “Alice através do espelho” (1871) de Lewis Carroll, existia antes disso como personagem duma rima em língua inglesa (http://nossospequenosleitores.blogspot.com/2012/01/voce-conhece-historia-do-humpty-dumpty.html#!/2012/01/voce-conhece-historia-do-humpty-dumpty.html); seu hilário diálogo com Alice merece ser conferido: (http://www.arquivors.com/lcarroll1.htm). Cabe ainda salientar que os personagens Jack e Jill parecem constar também em algum conto de fadas, mas ao pesquisar, só me deparei com um seriado televisivo ¬¬.

Após esta introdução geral, enfim adentrarei de modo mais detido no filme em questão; na realidade, ando tão desinteressado nas produções hollywoodianas que sequer estava sabendo desta aventura “solo” do Gatos de botas, a qual me interessou exclusivamente por ser eu um apaixonado por gatos; no entanto, o fator decisivo que me levou a assistir o filme no cinema foi o relato da verossimilhança felina do protagonista. Em termos mais claros: trata-se do fato de o personagem principal em alguns momentos abandonar a postura antropocêntrica (falar, andar sobre duas patas) e adotar atitudes tipicamente felinas. Nas palavras de Jerônimo Teixeira (edição de 07/12/2011 da revista Veja, matéria intitulada “México feérico”, p. 200):

"O grande barato do novo filme está nas vibrantes cenas de ação e nas gagues visuais: o protagonista às vezes abandona a postura antropomórfica para se dedicar a atividades próprias de sua espécie, como lavar-se com a língua ou perseguir focos de luz."

No final das contas, tal matéria de Veja serviu não só para que eu me inteirasse desta aventura “solo” do Gato de botas do Shrek, mas também (especialmente no trecho acima citado) para me impelir a assistir ao filme no insuportável Multiplex. Gostaria de salientar que tal autenticamente felina já fora adotada pelo gato em sua estréia no segundo Shrek; numa das cenas mais carismáticas, quando Fiona pensa que quem está montado no cavalo é Shrek, depara-se com um gatinho asseando-se (através de um banho de língua); o recurso da carinha meiga, também inaugurado no segundo episódio da franquia do ogro volta a aparecer na aventura específica do gato; no entanto, um aspecto no qual o segundo Shrek não fora verossímil em relação ao comportamento felino foi ao mostrar o gato bebendo algo como um humano, ou seja, levando o copo até a boca e inclinando-o, de modo a despejar o liquido em sua garganta. No filme que aqui resenhamos (numa das cenas fofas e simultaneamente cômicas, feita para despertar expressões do tipo “onn” na platéia), após adentrar num bar cheio de pose e pedir leite (!), o felino utiliza a língua para levar o liquido à boca, tal qual fazem os gatos. Há ainda outro aspecto cuja verossimilhança felina passa longe, desta vez sendo utilizado não só no segundo Shrek, mas também em “Gato de botas”, a saber, o fato de o felino se molhar e não se incomodar com isso (em seu filme, o gato só se incomoda ao ser molhado quando borrifam água nele); nada mais inverossímil, já que gatos detestam tomar banho que não seja o de sua própria língua. Faz-se aqui pertinente a menção a outra matéria (esta lida por mim só após assistir ao filme); nela, afirma Flávia de Gusmão (edição de 21/11/2011 do Jornal do Commercio, matéria intitulada “O encantador Gato de Botas”, caderno C, p. 1): :

"É justamente na contradição e na justaposição entre homem e animal, neste antropomorfismo, que reside o encanto desta personagem. Ele é diminuto, mas tem a voz de um tarimbado latin lover; ele é valente, mas bebe leite enfiando a lingüinha rosada no copo, e não aos goles; ele desfia um discurso shakespeariano para, no instante seguinte, ficar hipnotizado por um foco de luz e passar a fazer o que os gatos fazem por natureza: persegui-lo tonta a inutilmente."

Relendo a matéria de Teixeira, me dei conta de algo que me havia passado batido: de fato “Gato de botas” investe bastante em cenas de ação, diferenciando-se assim de Shrek (ao menos dos dois primeiros, que foram os que assisti); no entanto, como passei da adolescência, prefiro um bom roteiro a cenas de ação, e neste aspecto os filmes do ogro são superiores ao do gato. Dessa forma, os maiores atrativos de “Gato de Botas” são as cenas de ação e o carisma do personagem principal, e não só dele; discordo de Teixeira quando este afirma que “Não são personagens tão cativantes quando aqueles que se viam em Shrek”. No que concerne a Kitty Pata Mansa (terá o primeiro nome algo a ver com Hello Kitty?), esta constitui uma versão feminina do gato, mas o mais interessante é que capricharam na feminilidade da personagem; não sei explicar o motivo, mas ela tem charme, embora não tenha ganho nenhuma atenção nas várias resenhas sobre o filme que li. Já o outrora mencionado Humpty Dumpty é um caso aparte e, para falar dele, utilizo-me duma analogia com o Burro do Shrek: ambos me pareceram inicialmente personagens chatos, mas posteriormente pude perceber seus méritos; porém, no caso do ovo falante minha impressão variou de um extremo a outro, pois embora seja apaixonado por gatos, inclino-me a considerar Humpty o melhor personagem do filme. Primeiramente por suas expressões faciais, extremamente expressivas (enquanto a dos felinos é charmosa, mas um tanto clichê); em segundo lugar por ser ele o personagem melhor explorado do ponto de vista psicológico, além de ele ser simultaneamente trágico e cômico. O aspecto original do personagem (preservado no filme) aponta para sua falta de equilíbrio advinda de sua formato corporal, porém, tal peculiaridade possui forte caráter metafórico (não abordarei aqui este tema devido ao caráter já extenso do texto, mas a leitura do trecho de “Alice através do espelho” que linkei acima elucida um pouco a questão).

Em suma, “Gato de Botas” não constitui um Shrek alternativo; possui vantagens e desvantagens em relação aos filmes do ogro e as preferências numa comparação entre ambos dependerá do que cada expectador buscar. Achei que o filme do gato poderia ser muito melhor em enredo/roteiro, porém considero o carisma dos personagens forte o bastante para, na pior das hipóteses, equiparar o filme do felino aos do ogro que assisti em termos gerais (todos valem a pena serem assistidos, ao contrário, por exemplo, do “Alice” de Tim Burton).



Alberto Bezerra de Abreu, janeiro de 2012, redigido majoritariamente ao som da coletânea Ken Burns jazz the story of american music


Ps. dedico esta postagem a meus gatos: passados, presentes e futuros  =^^=

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Alguém que escreve para viver, mas não vive para escrever; apaixonado pelas artes; misantropo humanista; intenso, efêmero e inconstante; sou aquele que pensa e que sente, que questiona e duvida, que escapa a si mesmo e aos outros. Sou o devir =)
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